Como ser Imbatível na Entrevista de Emprego

Agora que leste os meus últimos posts e te livraste do CV modelo europeu, provavelmente está na hora de pensar em entrevistas de emprego. Há muito para escrever sobre este tema mas quero introduzi-lo com 4 conselhos a aplicar em entrevista.

A notícia da compra do Whatsapp pelo Facebook gerou uma série de artigos sobre missed hires, ou seja, processos de contratação que falharam em identificar o melhor candidato. Mas o facto do melhor candidato nem sempre ser o escolhido é na realidade uma boa notícia para muita gente. Significa que podes fazer algo sobre isso. Vai haver sempre alguém melhor que tu, mas se estiveres bem preparado, as tuas hipóteses aumentam consideravelmente.

#1. A chave está na preparação.

Há tempos precisei de contratar um assistente de marketing e no final de uma das dinâmicas de grupo, uma candidata resolve aproveitar a oportunidade de fazer perguntas para dizer uma das coisas mais estúpidas que já ouvi até hoje em entrevista: “então mas vocês são uma empresa de quê?” LOOOOL.

Eu, que por norma apenas observava enquanto a minha colega do recrutamento conduzia a sessão, não contive a resposta seca: “já devias saber isso”. E depois fui brindada com uma série de desculpas do género “não tive tempo” (mas com detalhes da vida pessoal), à qual respondi “5 segundos no Google resolviam esse problema”.

Consultar o site da empresa é o mínimo dos mínimos. Nenhuma outra geração teve à disposição tantos meios de obter informação sobre as empresas e no entanto, em Portugal, poucos se dão ao trabalho. E dos poucos que se dão, ainda menos vêem além do site.

Quando vou a uma entrevista analiso o relatório anual de contas da empresa de trás para a frente. Se pra ti informação financeira é chinês, não faz mal. O relatório de contas por norma também tem informação qualitativa muito valiosa: geralmente começa com uma carta do CEO que diz quais foram os resultados alcançados no ano anterior, quais os desafios que a empresa atravessa e qual a direcção para o futuro.

Vê a secção de imprensa do site e procura pelo clipping de notícias sobre a empresa. Vai ao Google News e pesquisa por notícias sobre os principais concorrentes. Pesquisa estatísticas sobre o sector.

Muito importante: quando te ligarem aponta imediatamente o nome da pessoa que te vai entrevistar e procura o máximo possível sobre essa pessoa.

Quando me licenciei, chamaram-me para uma entrevista na Sonae. Na altura ninguém estava sequer no LinkedIn, o que dificultava a tarefa mas consegui encontrar dois artigos de jornais locais a falar sobre uma equipa de futsal feminino, treinada pelo responsável de RH que me ia entrevistar. Armada com essa informação, mencionei que tinha jogado futsal no contexto de uma pergunta sobre trabalho em equipa. O tom da entrevista mudou completamente e criou-se empatia, até porque já tinha jogado contra a equipa do entrevistador.

Acabaram por não contratar ninguém para a vaga a que me tinha candidatado (ainda bem, não gosto de estudos de mercado) mas devo ter deixado uma boa impressão porque entretanto abriu uma vaga numa área que gosto e ele chamou-me para uma entrevista com o meu futuro chefe.

#2. Percebe quem te vai entrevistar

Quando falo em perceber não digo apenas saber o nome e fazer a pesquisa que mencionei no ponto anterior. Um processo de recrutamento longo pode implicar entrevistas com várias pessoas diferentes e cada uma delas tem um objectivo diferente. Todos querem encontrar o melhor candidato, mas pessoas em diferentes departamentos e níveis hierárquicos pensam de forma diferente e procuram atributos específicos.

Tens de ser um profiler. Perceber a agenda da pessoa que está do outro lado da mesa é crucial:

  • Corporate recruiters: quando envias um CV em resposta a anúncio é alguém do recrutamento (tipicamente um junior) que faz a primeira triagem e por norma compara o teu CV com uma lista de competências que vêm no anúncio. Geralmente se não cumpres os requisitos, estás fora.
  • Departamento de RH: os Recursos Humanos geralmente procuram por pessoas que sejam um bom fit com os valores e a cultura da empresa, que se adaptem à função actual e àquela que seria a próxima numa evolução natural de carreira e que também venham completar gaps na equipa que deve ser equilibrada.
  • Hiring Managers: noutras palavras, a pessoa a quem vais reportar e que procura alguém que traga resultados naquela área de negócio específica, que seja proactivo e passe uma boa imagem dele próprio.
  • Executivos de topo: mesmo que não estejas a candidatar-te para uma posição de topo, executivos C-level procuram pelas mesmas coisas em todos os candidatos. São eles que têm a visão geral do negócio e procuram pessoas capazes de fazer, de liderar e de inovar. Integridade e work-ethic também são importantes.

#3. Procura liderar a entrevista

As melhores entrevistas não seguem um guião pergunta-resposta-pergunta-resposta. As entrevistas das pessoas que conseguem o emprego parecem-se muito mais com conversas do que interrogatórios.

Eu adoro entrevistas porque sou muito boa nisto. Na última entrevista que tive com um CEO, perguntou-me se podia testar o meu nível de inglês. Falámos durante 40 minutos em inglês até ao final da entrevista porque com o flow da conversa até nos esquecemos que estávamos a falar noutra língua.

Mas nem toda a gente está à vontade em situação de entrevista e não faz mal. É algo que pode ser treinado e sem dúvida que ir preparado ajuda a ter mais confiança. Além disso, a empresa já está interessada em ti, porque isso é que estás num entrevista enquanto que outros milhares de candidatos nem uma reposta tiveram.

Este ponto é tão vasto que merece um artigo completo à parte. Só vou acrescentar que para atingir este nível de à vontade para liderar uma entrevista que a outra pessoa é que está a conduzir, a chave está mais uma vez na preparação. Responde às perguntas que te fazem de modo a provocar uma follow-up question no sentido que queres.

Vai preparado com 2 ou 3 perguntas inteligentes para colocar ao entrevistador. As perguntas que fazes dizem mais sobre ti do que as respostas que dás. Até hoje nunca contratei ninguém que tenha respondido “não” quando pergunto se têm questões.

#4. Usa o senso-comum

Não sabes o que vestir? Opta pela opção mais conservadora. Homens: nada de barba por fazer nem roupa por passar. Mulheres: camisa bem abotoada, maquilhagem, perfume e acessórios pelo mínimo.

Nunca chegues atrasado! Se tiveres um contratempo (real!) telefona a avisar. Uma vez estive 35 minutos à espera para começar uma dinâmica de grupo porque faltava uma candidata que estava a caminho. A minha colega do recrutamento teve pena. Eu não tinha.

É bom ser honesto mas lembra-te que não estás no confessionário. Quando te perguntam por um defeito ou ponto de melhoria, não refiras que ferves em pouca água. Pior, se te perguntarem por uma característica tua nunca refiras uma negativa!! Sim, isto acontece. Uma vez um candidato referiu-me prepotência como característica… “Desculpa, disseste prepotente”? (só para me certificar que tinha ouvido bem)… “Sim, sim, prepotente.”  -.-

Nunca fales mal do teu antigo chefe ou da tua empresa anterior. Uma vez tive um candidato a falar-me mal da ex-chefe que por acaso era uma amiga minha.

Neste ponto podia fazer uma lista gigante de falhas de senso-comum e que dão sempre histórias engraçadas.

E como eu gosto imenso de me rir: que outras histórias conheces?

Rute Silva Brito
About these ads

6 thoughts on “Como ser Imbatível na Entrevista de Emprego

  1. Pingback: Ter um bom CV não chega | Rute da Silva Brito

  2. Bom artigo. Lembro-me quando concorri para uma posição que realmente me interessava e que não queria perder como oportunidade. Antes de entrar na sala, já eu tinha perguntado nas semanas anteriores como eram as entrevistas na empresa e que tipo de perguntas faziam. Uma delas era “E como chegou você hoje até aqui?” A ideia desta pergunta é deixar o entrevistado ir além do que está escrito no CV e falar um pouco do seu percurso de vida. Quando me fizeram essa pergunta, abro o dossier e coloco uma tablet no meio da mesa. Tinha uma apresentação preparada para essa pergunta e só tive de carregar num botão para que cada slide viesse com uma imagem que eu explicava à audiência o que cada etapa me tinha ensinado e o que vinha a seguir. Ficaram impressionados com a qualidade da curta apresentação.

    A seguir vinha outra pergunta que também já estava à espera: “E o que vai fazer se for escolhido?” Para esta pergunta tinha preparado uma página A4 com um plano 30/60/90. Um plano com três paragráfos onde explicava o que iria fazer e o que esperava alcançar ao final de 30, 60 e 90 dias. Fazer o plano foi um ponto crítico, demostrou que tinha conhecimento factual dos problemas que tinham de ser resolvidos e que tinha uma estratégia bem estudada para os abordar. Ou seja, dei uma ideia muito concreta do que iria acontecer caso eu fosse escolhido vs escolher outra pessoa sem este tipo de plano (ou preparação).

    Não creio que seja necessário em todas as entrevistas obter este nível de preparação, mas a abordagem neste caso era necessária para passar de uma posição de simples estagiário na empresa, directamente para um posto senior como coordenador, e assim aconteceu.

  3. Olá Nuno,

    Excelente história! Importas-te que a partilhe um dia destes num post?

    Tenho uma semelhante…
    No meu último cargo em Portugal passei por um processo de recrutamento bastante extenso, com testes, um case study e 4 entrevistas antes da final. Foi óptimo porque deu-me uma noção muito clara do que seria necessário e fiz um plano estratégico mais como exercício para organizar o pensamento mas em todo o caso levei-o comigo (era curto, uma página A4 apenas).

    A meio da entrevista, perguntei ao CEO qual era a visão dele para aquela posição e os desafios que a empresa enfrentava. Nem de propósito, batia tudo certo com a minha visão. Mostrei-lhe o meu plano e fiquei com o lugar.

    Perdi uma noite inteira naquilo mas foi uma directa que valeu a pena!

    • > Importas-te que a partilhe um dia destes num post?
      De modo algum.

      > uma página A4 apenas
      Sim, vejo que realmente ajuda quando se faz o trabalho de casa antes da entrevista.

  4. Tenho um familiar que é gestor de recursos humanos, contou-me que fez uma entrevista a uma rapariga que ele achou que era a indicada para o lugar. Quando perguntou qual era a disponibilidade dela esta respondeu-lhe ” Desculpe, o trabalho não é para mim é para o meu namorado”. ” não seria então o seu namorado a vir a esta entrevista?” ao que ela respondeu ” ele não pode vir, estava ocupado”….Ainda não ouvi uma melhor que esta.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s