Ter um bom CV não chega

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Quando escrevi um post onde revelei que fazia currículos profissionais aqui no Dubai (5 Erros Comuns a Evitar no CV), a minha inbox foi inundada com pedidos de revisão de CVs vindos de Portugal.

Decidi abraçar o desafio oficialmente e encorajar que o fizessem. Desde aí não tenho mãos a medir, o que revela que há alguma consciencialização para a importância do currículo e para o desajuste do modelo europeu. Isto é óptimo, no entanto, tenho reparado também que é necessário desfazer algumas falsas expectativas.

Ter um bom CV não é garantia de entrevistas, muito menos de emprego. Um bom CV é um começo, mas não chega.

É certo que em Portugal há mais procura que oferta, mas ainda existe emprego (se são precários ou não, é outra história). O que é que estás a fazer para que o que há seja teu? Responder a anúncios? Preencher formulários de candidatura?

Parabéns, dominas o processo de procura de emprego dos anos 80.

O mercado de trabalho mudou drasticamente mas continuamos a usar os mesmos métodos de procura de emprego do século passado. Sim, nós, a geração deste milénio.

A culpa não é só nossa, é também das empresas que continuam com processos de recrutamento obsoletos e extremamente ineficazes na identificação do talento. Qual é o profissional altamente qualificado que se sujeita a preencher aqueles formulários enormes e altamente desentesantes sem desistir a meio?

Mas como não podes mudar o sistema do lado de fora, cabe-te a ti contornar o processo.

Como assim, contornar?

Deixar de enviar CVs (mesmo que sejam bons) em massa para o buraco negro.

Responder a um anúncio de emprego, fazer uma candidatura espontânea com aquelas cartas de discurso pré-feito e preencher formulários nos sites das empresas dá-te mais ou menos as mesmas hipóteses de seres escolhido como de ganhares a lotaria.

Se o CV for profissional e estiver optimizado, as hipóteses melhoram um pouco mas a probabilidade é que em 95% dos casos ele se vá perder num universo paralelo, o que explica a ausência de respostas.

Fazer apenas isto e esperar que as coisas aconteçam é ser um job seeker passivo, destinado ao insucesso. Queres mesmo deixar o teu futuro nas mãos de profissionais juniores que fazem triagem de milhares de CVs por vaga? Ou nas “mãos” de softwares que fazem triagem automática de CVs com base em keywords?

Não precisas de ser passivo só porque é assim que 99% das pessoas procura trabalho. Aliás, essa é exactamente a razão pela qual não deves ser: demasiada concorrência. Torna-te num job hunter ao recuperares o controlo do processo.

Há quem diga que procurar emprego é um trabalho a full time e eu não poderia discordar. Além de ser difícil, e potencialmente esgotante a nível psicológico, requer uma estratégia concertada de vários esforços diferentes. Responder a anúncios é apenas uma pequena parte. 

O que fazer com o resto do tempo?

O 1º passo dar é estares a par da existência de um monstro chamado hidden job market:

“It seems almost a cruel joke being played on people desperate to find work: Most jobs getting filled these days aren’t even advertised.

Instead, they’re typically part of the hidden job market — those millions of openings that never get formally posted. It now accounts for up to 80% of hires, according to some estimates.”

Não sou eu que o digo, é a revista forbes: apenas 20% dos empregos disponíveis são anunciados! Quer dizer que temos 95% das pessoas a competir por 20% das vagas. Não é melhor passar para o outro lado?

Isto é tema para um futuro post, mas para já vou adiantar que descobrir o hidden job market requer bastante mais trabalho que ficar em casa à espera que o telefone toque. É preciso pesquisar, ler notícias e ter um olhar treinado para perceber as entrelinhas. Sabes aquelas notícias que falam de empresas em crescimento? De empresas que se vão internacionalizar? Crescer implica aumentar equipa e podes ir bater à porta como a solução ideal para as dores de crescimento, ainda antes de terem pensado sequer qual o perfil que precisam de anunciar no net-empregos.

O 2º passo é um conselho vindo do mundo do marketing: target, target, target.

Costumo dizer a todos os meus clientes que fazer um CV demasiado genérico é um erro, um que toda a gente comete. Não se pode tentar ser tudo para todos pois acaba-se por não ser nada para ninguém.

Nenhuma empresa de sucesso lança produtos para toda a gente, todos os produtos têm um target, um público-alvo específico. Da mesma forma, se trabalhas em design de interiores mas pelo caminho também fizeste um bocadinho de design gráfico e de webdesign, não podes usar um CV génerico para te candidatares a uma agência especializada em web, só porque tens lá no meio uma função que refere isso numa linha. Vão sempre haver centenas de webdesigners bons a passarem-te à frente.

Isto aplica-se a todo o processo de procura de emprego, desde o momento em que fazes o CV (ou vários, podes ter mais que uma versão) às empresas que te candidatas e à maneira como te apresentas na entrevista. Tudo tem de ser direccionado.

Mesmo em termos de networking, ir a eventos fazer contactos e distribuir cartões pode trazer job leads mas é pouco eficaz porque estás dependente do altruísmo de estranhos que podem ou não passar o teu contacto a quem te possa empregar.

Determina primeiro as empresas para as quais gostarias de trabalhar, como podes acrescentar valor e porque é que te deveriam contratar. Depois descobre quem tem o poder de te contratar (normalmente a pessoa que chefia o departamento). Acabaste de identificar o teu target.

Agora podes fazer networking direccionado para chegares ao teu target com alguma referência. Pesquisa eventos onde o teu futuro chefe vai estar presente. Lê artigos que ele tenha escrito. Procura por pessoas que tenham trabalhado na empresa e estabelece contacto. Num mundo em que existe LinkedIn, não há desculpa. 

Mas lembra-te que precisas de uma estratégia de esforços concertados – como dizem em inglês “don’t put all your eggs in one basket.”

O 3º passo é começares a responder a anúncios de forma diferente 

Não envies simplesmente o CV. Não escrevas aquelas cartas de apresentação que começam “Exmo Sr. Dr. do Departamento de Recursos Humanos”… Sabes quantas cartas dessas eliminei em 3 segundos? TODAS!

Identifica qual o problema que a empresa está a tentar resolver com a nova contratação e posiciona-te como a solução. Enfatiza as tuas qualificações que melhor respondem a esse problema no CV e escreve uma carta completamente personalizada. Descobre quem a vai ler e começa com um “Caro João Costa“. Esquece o nome “carta de apresentação”. A carta não é sobre ti, é sobre a empresa.

Melhor ainda, não te deixes à mercê de ATS’s (Applicant Tracking Systems) ou de quem faz a primeira triagem.

Na semana passada escrevi sobre os vários intervenientes no processo de candidatura, e uma das melhores coisas que podes fazer é saltar etapas. Cada entrevista é mais uma etapa onde podes ser eliminado por variadíssimos motivos. Contacta directamente o hiring manager, o teu futuro chefe. 

Estes são apenas 3 conselhos simples mas há mais e para cada um deles poderia escrever um livro. O importante é que hoje deixes de ser um candidato passivo e comeces a pensar no teu plano de acção.

E lembra-te: cada vez que envias um CV para o buraco negro, morre um gatinho na China.

Rute da Silva Brito
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9 thoughts on “Ter um bom CV não chega

  1. Grande problema dos portugueses:
    “Não se pode tentar ser tudo para todos pois acaba-se por não ser nada para ninguém.”
    Excelente artigo

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