Emigrar: ganhar mais e viver com menos

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Nunca gostei de entulho. Mas se há coisa que aquelas limpezas gerais ao sábado de manhã me ensinaram é que, inevitavelmente, as coisas têm tendência a acumular. São as revistas que se lê, a papelada do trabalho que se traz para casa, as contas pagas que não foram arquivadas, aquela peça de estação que não se resistiu a comprar, o livro que o amigo emprestou, a artigo decorativo que recebeu e não sabe onde por…

Geralmente essas minhas limpezas gerais produzem uma pilha épica de lixo e inúmeros sacos de roupa para doar. Vai tudo a eito! No fim, fica tudo limpo, arrumado e uma sensação de missão cumprida… até ao próximo mês!

No que respeita ao acumular de tralha, mudar-me para o Dubai no ano passado foi a melhor coisa que me aconteceu. Vendemos praticamente tudo o que tínhamos e viemos cada um apenas com a sua mala de roupa (e vinho!).

Porquê?

Porque quando se parte com um data de regresso em mente – dois ou três anos depois – não há razão lógica para acumular pertences, embora todos os dias veja centenas de famílias a vender tudo e mais alguma coisa porque se vão embora e não faz sentido levar a casa às costas.

Vivemos num estúdio e por isso a mobília resume-se ao essencial: uma cama de casal, sofá de dois lugares, mesa de refeição, 4 cadeiras (2 delas amovíveis), uma estante e móvel da TV com o respectivo equipamento de imagem e som (somos dois HipHop Heads cá em casa).

A roupa tem de caber toda num só armário e cómoda, o que é óptimo para escapar à tentação da compra por impulso no maior centro comercial do mundo, mesmo à porta de casa.

Idas ao supermercado são feitas diariamente aqui no prédio, o que elimina desperdícios de comida e a necessidade de ter micro-ondas. Usar ingredientes frescos é óptimo para manter uma alimentação saudável.

Ironicamente, tornei-me menos consumista quando vim morar para a cidade do consumo.

Compro menos coisas agora que tenho um maior poder de compra.

Onde quase todos sofrem do síndrome “keeping up with the Joneses”, I just don’t care. É giro ver as malas Prada nos braços das vizinhas com quem me cruzo no elevador ou os Ferraris e Lamborghinis estacionados na garagem. Ver sem sentir necessidade de competir.

Embora aqui todos conduzam carros de luxo, resistimos à vontade de comprar um Escalade por “apenas” 10 mil euros, e em vez disso andamos de Mitsubishi Lancer alugado.

Viver com menos e desapegada de bens materiais tem sido uma experiência muito libertadora.

Há dias, num curso de gestão de finanças pessoais, falavamos de renter’s insurance (seguro para o recheio da casa) e de situações hipotéticas como incêndios ou roubos. Sinceramente, se o recheio da minha casa desaparecesse, não fazia muita diferença.

Sinto falta das coisas que deixei em Portugal? Além da ocasional nostalgia quando penso nos meus casacos de inverno ou na colecção de ténis arrumados num armário em casa dos meus pais, apenas gostava de ter os meus livros comigo.

Não quero com isto fazer apologia de um estilo de vida frugal.

Ou dizer que devemos ser forretas, pelo contrário. Dentro das nossas possibilidades, não poupámos quando foi hora de escolher o sítio onde iríamos viver. Jantamos fora com frequência. Suportamos causas em que acreditamos.

Isto para dizer que emigrar nos obrigou a pensar em objectivos e é importante orçamentarmos em função das nossas prioridades.

Na maioria das vezes emigrar significa, para a minha geração, um aumento de rendimento. E vemo-nos numa situação que muito facilmente se transforma de oportunidade em armadilha financeira.

Em vez de liberdade financeira, somos escravos de um ciclo de upgrade constante no estilo de vida e cada euro extra ganho, é um euro extra gasto. Se há lição que devemos retirar da situação do país que deixámos para trás é que nem sempre teremos o rendimento disponível que temos hoje.

Por isso, a todos os que contemplam uma mudança para o estrangeiro e a tarefa ingrata de ter que fazer as malas e escolher o que se deixa para trás: não stressem. Deixem as coisas porque o importante são as experiências que se vai viver e as pessoas com quem se partilha.

E quando chegarem, tratem de acumular experiências e não coisas. Quando regressarem terão liberdade financeira e mais opções à vossa frente.

Não foi para isso que deixámos Portugal?

Rute Silva Brito

Este texto foi escrito para a minha coluna semanal no icote.pt
 
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