O Leitor Pergunta #4: Devo colocar hobbies no CV?

Esta semana perguntaram-me: é aconselhado incluir os hobbies no CV?

Visto esta ser uma questão que divide até os profissionais de recrutamento resolvi deixar ao vosso critério mas parece que as opiniões aqui também se dividem. Entre cerca de 50 votos, os resultados foram os seguintes: 43% SIM, 37% NÃO, 20% NÃO SEI.

Como aqui comentaram e o RealPunch disse (e muito bem), a resposta só pode ser uma: depende.

E depende de muita coisa. Do hobbie em si, do teu grau de envolvimento no mesmo, dos skills que desenvolveste, da relevância para a função em si e do teu nível de experiência. De seguida vou desenvolver cada um destes tópicos para nos ajudar a perceber quando e como dar relevância aos hobbies.

#1. O hobbie em si

Há vários hobbies que vejo repetidamente em CVs, nomeadamente quando o candidato não tem muita experiência. Estou a falar de coisas como cinema, estar com os amigos, leitura, viagens, música… Ora, não podia haver lista mais genérica que esta! Literalmente TODA A GENTE gosta de estar com os amigos, toda a gente vai ao cinema e ouve música nem que seja no carro.

Se queres mesmo pôr hobbies não penses em tudo o que fazes para passar o tempo, pensa em coisas interessantes. E sê específico. Cinema é irrelevante. Se gostares de cinema independente já é outra história…

Pergunta-te também se o hobbie é work-friendly e com isto pretendo eliminar hobbies potencialmente nocivos. Se te estás a candidatar a um cargo no Médio Oriente, se calhar é melhor não pores Wine Tasting. Coisas obscuras também é melhor deixar para a esfera privada… Filiações políticas também podem não ser boa ideia.

#2. O teu grau de envolvimento

Há certos hobbies que praticamente definem quem somos tanto ou mais que o nosso emprego. Os nossos interesses revelam bastante (e formam!) a nossa personalidade e por isso, dependendo do teu grau de envolvimento com um hobbie em particular, pode valer a pena referir.

Isto é importante porque hoje em dia mais que nunca, precisamos de interesses diversificados e experiências sociais para lá do trabalho para conseguir competir num mercado cada vez mais exigente e fragmentado. Já dizia o meu professor, Manuel Batista: “Se souberes só de marketing, nem de marketing sabes.”

Se fazes ponto cruz para descontrair, ninguém quer saber disso. Se participares em feiras de artesanato e tiveres transformado o teu hobbie quase num negócio, aí tens uma história para contar.

Se jogas futebol à sexta feira com os colegas e vais ver o Benfica à Luz não é assim tão relevante. Se tiveres jogado futsal a um nível federado durante vários anos, se calhar vale a pena referir. Aliás, este é o meu caso e foi importante para conseguir o meu primeiro emprego depois de licenciada. (Que fique bem claro que o meu caso é ter sido federada em futsal e não ser adepta do SLB lol).

O Desporto é um óptimo exemplo. Vejam o video acima (se não for por mais motivo nenhum, é um excelente motivacional). Trata-se do discurso pré-jogo do treinador da equipa de Futebol Americano do Leland Highschool. Jogar a este nível TEM relevância e traz-nos lições para a vida. O que me leva ao próximo ponto.

#3. Os skills que desenvolveste

O que tenho vindo a repetir não se aplica apenas à experiência profissional: um CV não é uma lista de compras. É importante não listar interesses e hobbies. Se é para incluir então escolhe os mais importantes e explica o que aprendeste.

O Hip Hop é por norma algo com uma conotação negativa para quem não conhece (a maioria dos recrutadores): ou é uma brincadeira de miúdos “aquela coisa do yo, yo” ou está associado a criminalidade ou a futilidade. No entanto, se és MC e queres ser copywriter, podes muito bem correlacionar os skills que desenvolveste: escrita criativa, storytelling, wordplay, etc.

Tenho uma amiga que tinha experiência numa consultora Big Four, licenciatura e mestrado em universidades de topo e quando foi contratada para a Google, todas as entrevistas incidiram sobre uma única coisa: uma revista de Hip Hop que ela tinha criado e gerido. Um hobbie com grau de envolvimento tal, que, embora não fosse experiência profissional no sentido em que não era remunerado, desenvolveu tantas competências de empreendedorismo e gestão que foi pra a sede na Irlanda. Pois é… Hip-Hop – 1, “Real” Experience – 0.

Já agora, eu não listo hobbies mas também tenho um projecto desses que mantenho no CV até aos dias de hoje.

#4. Relevância para a função

Este é o ponto mais importante de todos e como costumo dizer: target, target, target. Não te fiques pelo mostrar os skills que desenvolveste, faz a ligação para como os poderias aplicar na função.

Há pouco trabalhei com um cliente que é de gestão, é empreendedor e pós graduado em Recursos Humanos. No perfil que colocámos no topo do CV referimos que enquanto treinador, levou uma equipa de futebol ao título de campeã, o que é super relevante para cargos de manager: a capacidade de gerir e motivar equipas, levando-as a resultados.

#5. O teu nível de Experiência

Por norma, à medida que vamos acumulando experiência, os hobbies vão perdendo importância e na maioria dos casos não fazem grande diferença no CV. Actualmente estou nesse nível de experiência em que não “preciso” de os mencionar.

Curiosamente, na semana passada tive uma entrevista bastante informal mas em que se falou negócio, negócio, negócio até que no fim me perguntaram “so, what do you do for fun?”.

Isto revela uma mentalidade com a qual eu concordo bastante. O mundo das empresas está a transformar-se e vai no sentido da informalidade crescente e numa melhor integração da vida pessoal e profissional. Basta pensarmos em empresas com a Google ou que, em Portugal, trabalhei numa empresa em que a minha missão era torna-la mais Cool em termos de cultura interna.

Estamos gradualmente a afastarmo-nos daquele paradigma em que as pessoas vestem o fato e com ele uma máscara, uma persona adaptada ao mundo dos negócios. Estamos a deixar de lado o jargão, o corporate talk, bullshit-selling em modo zombie. A autenticidade é um valor cada vez mais desejado.

What do you do for fun é uma pergunta perfeitamente válida. Ninguém quer trabalhar com pessoas secantes ou que não têm interesses fora do trabalho. E os hobbies ou o que fazes no teu tempo livre revelam bastante da ti. E hoje em dia contratam-te por quem és e não só pelo que fazes. Pessoas e não apenas trabalhadores.

 Obrigado a todos pela participação!

Rute Silva Brito
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