Pergunta #3: Não cumpro os requisitos. E agora?

catbert

Nesta rubrica de “O Leitor Pergunta” escolhi uma questão que me colocam várias vezes: “Vi um anúncio de emprego que me interessava, mas não tenho todas as qualificações que pedem. Devo candidatar-me à mesma?”

Se segues o meu blog, já deves ter reparado que menciono várias vezes que muitos CVs mais parecem listas de compras, com tantas descrições de tarefas desempenhadas (em vez de resultados alcançados). Ora, acontece que o facto do processo de job hunting ser tão frustrante não é apenas culpa dos candidatos.

A forma como os processos de recrutamento são conduzidos pelas empresas também tem um grande peso, a começar pelos anúncios publicados. Desde os que tem informação insuficiente, erros ortográficos (sim, não são só os candidatos!) e os que são também autênticas listas de compras a solicitar dezenas de requisitos “mínimos”.

Sabes quais são, né? Aqueles para os quais o Super Homem não seria qualificado. Os que pedem uma fusão do Son-Goku com o Vegeta, em modo super guerreiro.

Tenho planeado um conjunto de posts sobre práticas de recrutamento e políticas de RH obsoletas, que são uma barreira à captação e retenção de talento nas empresas. Mas para já vou apenas vou apenas responder directamente à questão colocada.

O que fazer quando achas que gostarias daquela função mas não cumpres os requisitos pedidos?

A minha resposta é directa: candidata-te à mesma.

Basear a procura de emprego apenas em anúncios tem uma taxa de sucesso baixa, de qualquer das formas. Porque não alargar os horizontes e tentar a sorte?

Uma das coisas que os candidatos não têm noção mas que faz toda a diferença é os requisitos funcionam como um filtro. Muitas vezes o objectivo não é tanto descrever a pessoa ideal para o cargo, mas sim excluir todas as outras. São um mecanismo de exclusão de candidatos que afastam precisamente quem tem dúvidas se é qualificado ou não.

Se queres aumentar tuas hipóteses e não estar tão à mercê da sorte, há 3 pontos a ter em mente.

#1. Pergunta a ti mesmo: a empresa interessa-te?

A vaga em si pode não ser exactamente o que estás à procura, mas se a empresa te interessa deves fazer os possíveis para conseguir uma entrevista. Não importa o cargo, o que interessa é a oportunidade de contacto face a face pois pode ser uma porta de entrada como qualquer outra.

Quando terminei a faculdade, respondi a um anúncio para estudos de mercado (uma área que detesto) apenas porque a empresa era a Sonae Sierra. Fui à entrevista, estava tudo a correr bem e veio a questão sobre estudos de mercado em si, se era uma área que gostava. Ora, como já disse aqui, nunca se deve mentir numa entrevista, até porque os bons profissionais de recrutamento tem faro para estas coisas. Admiti que não era o que mais me entusiasmava dentro do Marketing mas reforcei o meu interesse na empresa.

Uma semana depois, a pessoa que me entrevistou ligou-me a perguntar se estava interessada noutra vaga em marketing e fui a uma entrevista com aquele que viria a ser o meu futuro chefe. Voilà.

Já me aconteceu duas vezes na minha carreira: ir uma entrevista para uma coisa e sair de lá com um cargo ainda melhor.

#2. Tens de compensar de alguma forma o facto de não cumprires todos os requisitos

A entrevista é uma porta de entrada, ok… Então e como se consegue a entrevista? Não é por gostares da empresa ou porque gostavas de trabalhar em RP quando a tua formação é em engenharia que te vão chamar… Tens de ser qualificado para o cargo. E mais que isso, tens de explicar muito bem o que faz de ti qualificado. Enviar um CV genérico não chega. Fá-lo uma carta de apresentação personalizada.

Nunca trabalhei no sector automóvel mas em 2010 fui a uma entrevista na Volvo porque na minha carta de apresentação, entre outras coisas, expliquei que o meu pai é mêcanico e “cresci” na oficina dele. Acabei por não aceitar a proposta mas consegui lá chegar.

#3. Há vagas que não têm ainda um perfil completamente definido

Por vezes as empresas têm necessidade de contratar uma pessoa mas não têm as funções perfeitamente definidas, apenas têm a visão. Como tal, o perfil da pessoa a contratar também não está perfeitamente definido, embora o anúncio reflicta no mínimo uma ideia do que se procura. Ao descartares o anúncio podes estar a deitar fora uma oportunidade.

Antes de vir para o Dubai trabalhei na Teleperformance como Internal Marketing Manager. A vaga anunciada tinha sido “Manager Clube Teleperformance” e queriam alguém licenciado em turismo, com 5 anos de experiência numa cadeia hoteleira internacional. Errr… não sou eu de todo! Mas ao ler a descrição da função percebi que gostaria do trabalho e tinha o perfil, então candidatei-me à mesma.

Fui entrevistada por 3 pessoas diferentes antes de chegar à final com o CEO, e nas três parecia procurarem um perfil diferente. É normal pois trata-se de uma função pouco comum. O que é fundamental neste caso (e isso nunca muda, independentemente do interlocutor) é perceber qual o problema que a empresa quer resolver com a contratação. E posicionares-te como a solução, tendo a tua formação, experiência passada e skills como prova disso mesmo.

A não ser que seja uma área altamente especializada e técnica com requisitos obrigatórios, o que é publicado no anúncio pouco importa. É preciso saber ver além disso. Neste caso, quando cheguei à entrevista final a minha visão estava alinhada com a do CEO e isso é que foi determinante. Nunca se falou da minha licenciatura ser em marketing e não em turismo e de nunca ter trabalhado num único hotel sequer.

Encara os requisitos como guidelines: pistas sobre o problema que existe na organização e apresenta-te como a solução.

Rute Silva Brito
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