Trabalhar em Modo Walking Dead

the walking dead working dead at office

É fácil irmos trabalhar. Chegarmos a horas, irmos a reuniões e cumprimos as tarefas que nos dão. Mas não basta aparecer.

O “aparecer para trabalhar” não só prejudica a nossa performance como é algo que nos corrói lentamente Walking Dead-style: até atingirmos o modo zombie.

Em Portugal, a crise enviou centenas de milhares para o desemprego e ao mesmo tempo deixou milhões com salários reduzidos e cargas de trabalho muitas vezes desumanas.

Isto explica em parte porque mais de 60% pense frequentemente em despedir-se.

Imagino que desses 60%, talvez algo entre 1%-5% o faça mesmo. Entre o medo da incerteza e a relutância em abandonar a zona de conforto, poucos fazem algo para mudar a sua situação.

Por experiência própria e de outros próximos de mim, sei que viver neste “limbo” não é sustentável por muito tempo e eventualmente leva-nos a um caminho altamente destrutivo.

A altura certa para fazer algo sobre isso é agora. Quanto mais cedo melhor. Aos primeiros sinais de desmotivação, excesso de cansaço ou desleixe, temos de agir.

Quando se trata de excesso de trabalho, podemos não o fazer por princípio. Porque gostamos do que fazemos, acreditamos no projecto, somos leais, não somos pessoas de desistir, achamos que somos capazes de aguentar só mais um bocado…

Invariavelmente a situação acaba por implodir. Comigo, foi em 2012. O meu corpo é que me obrigou a parar e ainda hoje sinto que não recuperei totalmente.

Na altura, numa conversa com o meu chefe sobre o futuro difícil da empresa percebi que, mesmo tendo vontade de continuar, não tinha condições para fazê-lo com o mesmo nível de entrega. Nunca me custou tanto sair de um projecto mas simplesmente não tinha mais para dar.

É claro que isto é um caso extremo.

Mas mesmo quando se trata apenas de desmotivação, quando se deixa andar eventualmente chega-se a um ponto sem retorno. Aquele ponto em que mesmo que a causa do problema seja resolvida, já não vai a tempo. Ficamos contentes por uns tempos mas à mínima complicação volta tudo ao mesmo.

motivation 1

O que podemos fazer quando nos apercebemos que algo está errado?

Reconhecer os sinais é o primeiro passo.

Se todos os dias acordas sem vontade nenhuma de começar o dia ou se passas o Domingo à noite sempre deprimido a antecipar a segunda de manhã, algo está mal.

Depois de reconhecer que existe um problema, é necessário identificar a causa.

A desmotivação por si só não é uma causa e pode ter origem em várias coisas como o excesso de trabalho, pressão constante, falta de reconhecimento, falta de desafios, sentimento de injustiça, ordenado baixo ou mau estar com os colegas.

Ou então pode nem ter a ver directamente com o trabalho mas ser uma questão pessoal que necessita de ser resolvida. E aí só tu podes fazê-lo.

Uma vez identificada a causa, há que procurar resolver internamente na empresa.

Não podemos nunca partir do pressuposto que o problema é óbvio e está à vista de todos. A pessoa a quem reportas pode não fazer ideia de que estás descontente e muito menos dos motivos.

Muitas vezes quem está acima só repara quando começa a notar quebras de performance e aí a responsabilidade passa a estar do teu lado. Mesmo que exponhas a situação nessa altura, provavelmente já deixaste prolongar a desmotivação ao ponto que mesmo que sejas ouvido, já é tarde demais.

Aquele ponto em que até um aumento de ordenado já não muda nada. Ficamos contentes no primeiro mês e depois volta a desmotivação.

Por isso que é importante fazer algo o quanto antes. Pedir um aumento, procurar mudar de departamento, pedir mais responsabilidades, confrontar um colega (ou manager) sobre aquela atitude que te está a moer ou procurar ajuda de um mentor ou profissional mais experiente.

Considerar uma saída estratégica

Se as coisas não mudarem ou se já sentes que estás no ponto sem retorno, é altura de começar a planear a saída da empresa.

Digo planear e não sair imediatamente não só pela questão financeira mas também porque é mais difícil encontrar emprego quando se está desempregado. Isto porque, embora quem está desempregado tenha mais tempo para dedicar à pesquisa e entrevistas, as empresas preferem contratar candidatos passivos.

(Eu sei que é ingrato para quem está desempregado… Mais sobre este tema em futuro post).

É importante estabeleceres um prazo para ti próprio“daqui a 3 meses saio” – porque senão vais acabar por te desleixar na procura e ficar eternamente agarrado à desculpa do “ainda não arranjei algo melhor“.

Se o motivo for excesso de trabalho constante e já estás no ponto em que é uma questão de saúde, sai imediatamente.

E não olhes para trás.

Estás mal? Muda-te. Ou muda alguma coisa. Ou muda de sítio.

Rute da Silva Brito
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Trabalhar em Modo Walking Dead

4 thoughts on “Trabalhar em Modo Walking Dead

  1. Excelente artigo. Revejo-me perfeitamente na situação de entrar num projecto de “corpo e alma” e ter que desistir passados três anos de muitos sacrificios por considerar que já não tinha condições/motivação para continuar. A decisão demorou imenso tempo a tomar, apesar de me ter consciencializado que era impossível continuar, não conseguia ter coragem para tomar essa decisão definitiva e arrastei uns meses com noites sem dormir ate decidir enfrentar o problema.
    Uma ideia que julgo se aplica também a este tema, é a questão de pensarmos que somos imprescindíveis ou insubstituíveis. Não somos e não podemos deixar que esse pensamento tolde a nossa capacidade para tomar decisões sobre o que é melhor para nós e para a empresa. Outra experiencia que tive na sequência da aprendizagem do projecto anterior e dos conselhos que a Rute aqui refere, acabou por ser muito positiva. Quando senti que não estava bem, apresentei a situação aos meus superiores, já com outras alternativas em vista e acabei por conseguir manter-me no projecto com as condições que considerei imprescindíveis para manter a minha motivação e bem estar profissional.

  2. Olá André,

    Percebo perfeitamente porque já vivi ambas as situações. Também eu arrastei a decisão durante algum tempo e com muitas noites passadas em branco com o dilema que tinha em mãos. Não queria de maneira nenhuma abandonar o projecto mas foi a melhor decisão que tomei.

    Se um dia o projecto chegar ao potencial que tem apesar das dificuldades do mercado em Portugal, vou ser uma “mãe” ainda mais orgulhosa porque deixei ali sangue, suor e lágrimas, literalmente.

    Nesse projecto em particular, infelizmente não havia uma solução alternativa teria de ser um tudo ou nada durante mais uns anos. Mas são raras as situações em que não há essa solução alternativa, o difícil é ter o discernimento de procura-la mais cedo no processo, antes de chegar a um ponto de ruptura.

    Foi uma grande aprendizagem para mim. Fico feliz por saber que outros já passaram pelo mesmo e conseguiram dar a volta por cima.

    Muito obrigada pelo comentário – e para a próxima o “tu” chega. 🙂

    Rute

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