Faz mais perguntas estúpidas

0393

Ontem foi o Dia Internacional do Café. Sim, isso existe. Não só existe o dia do café como de toda uma série de coisas aparentemente idiotas para terem um dia dedicado. Como o “Talk like a Pirate”, o “Virus Appreciation Day” ou “International Ninja Day” (ok, este é bué fixe!!).

Hoje, nos Estados Unidos, celebra-se o “Ask a Stupid Question Day”.

Pode parecer um disparate, mas não é. Celebrado no último dia escolar do mês de Setembro, nasceu nos anos 80 como forma de encorajar os alunos a fazerem mais perguntas na sala de aula, sem receio de serem gozados pelos colegas ou sentirem-se estúpidos.

Acho que todos crescemos um pouco com esse estigma e não é algo que desaparece na idade adulta. Quantas vezes não estamos em reuniões, aulas, conversas, onde não percebemos o que está a ser falado ou temos uma dúvida mas não perguntamos?

Quando somos crianças, somos naturalmente curiosos e até passamos pela chamada idade dos porquês. Mas, à medida que crescemos, somos tão formatados para o conformismo que deixamos de fazer perguntas.

Uma mente curiosa e a capacidade de fazer as perguntas certas distinguem foras de série de profissionais average.

Exemplos?

As perguntas que um candidato faz numa entrevista de emprego são muito mais importantes que as respostas que dá. Um candidato que não faz perguntas raramente é escolhido.

Há umas semanas tive uma reunião com a HR Manager da minha empresa porque vou ter de abrir um processo de recrutamento. Mostrei-lhe a job description que tinha feito e o perfil da pessoa que tinha idealizado. Saí a pensar “esta gaja percebe mesmo disto” pelas perguntas que me fez imediatamente ao olhar para o perfil.

Durante dois meses a equipa de comunicação andou em brainstorms e reuniões a tentar definir o posicionamento e a visão da empresa. O problema é que estavam a tentar encontrar respostas sem colocar perguntas. Quando fui envolvida no processo, fui ao cerne da questão. Três perguntas e 20 minutos depois, tínhamos tudo escrito.

Andei durante dias a trabalhar num projecto. O meu CEO chega, pergunta como está e faz uma pergunta simples: porquê? Com uma palavra fez-me deitar o projecto abaixo e recomeçar, desta vez na direcção certa.

Reflectir no “Porquê?” é a diferença entre trabalho extraordinário e trabalho average que implicitamente responde “sempre se fez assim”, “o meu chefe quer isto desta maneira”, “não sou eu que decido” ou “não é da minha responsabilidade”.

Perguntar porquê é contrariar o status quo. Não tenhas medo de fazer perguntas estúpidas.

Mas atenção, há uma diferença entre perguntas estúpidas e perguntas preguiçosas. A pergunta preguiçosa é aquela que transfere o ônus da resposta para outra pessoa, quando está ao teu alcance.

As perguntas mais difíceis – e as melhores – são as perguntas que colocas a ti mesmo.

Rute Silva Brito

Advertisements
Faz mais perguntas estúpidas

8 thoughts on “Faz mais perguntas estúpidas

  1. Fernando Fernandes says:

    Muito bom o texto. Parabéns!

    Esta situação do sermos formatados, faz-me lembrar o que se passa exatamente com a criatividade.
    Enquanto crianças imaginamos tudo e mais alguma coisa, fazemos brincadeiras estranhas com objetos imaginários. Mas depois entramos na escola e todo o sistema educativo acaba por nos formatar a proceder de certo modo, etc etc.. perdendo-se assim a parte criativa ao longo dos anos 😦

  2. Obrigada Fernando.

    Sem dúvida, o ensino precisa urgentemente de uma revolução. As escolas tal como existem hoje foram concebidas na Era Industrial, para formar operários. E continuamos com o mesmo ensino formatado, simplesmente o objectivo é colocar os jovens no ensino superior. E depois?

    Já pensei escrever uns quantos artigos sobre este tema mas há tanta informação boa (todas as TED Talks do Sir Ken Robinson, o manifesto do Seth Godin…) que não teria grande coisa a acrescentar.

  3. Tatiana says:

    Mais um bom post. O mais significativo do que tu aqui escreveste, para mim, foi precisamente o facto de teres lembrado (é bom não esquecer… e, sobretudo, ser recordado…) que as perguntas mais difíceis são as internas. Mas… perguntas levantam dúvidas. E demasiadas dúvidas são dissuasoras da capacidade de acção e mobilização.

    No email que te enviei há algumas semanas, eu também te fiz perguntas estúpidas. Mas não considero que tenham sido perguntas preguiçosas, pelo que gostaria que me tivesses respondido. Mesmo que fosse para me dizeres que as consideravas (às minhas perguntas) preguiçosas, e não estúpidas.

    Seja como for, gostei de te ler.

    1. Olá Tatiana,

      Obrigada pelo comentário e também pelo tempo que tomaste a enviar um email.

      Na verdade, se não respondi foi porque ainda não tive oportunidade. Não discrimino os emails em função das perguntas 🙂 mas recebo literalmente dezenas de e-mails por semana e não consigo dar resposta a todos. Certamente não em tempo útil, infelizmente.

      Podes dizer-me o teu apelido para perceber qual é o email ?

  4. Tatiana Marques says:

    Olá Rute,

    Vou ser sincera contigo (como fui no email), porque agora até me fiquei a sentir mal ao reler o que aqui deixei escrito em tom semi-crítico e de auto-comiseração (como quem diz: se não quiseste saber de mim há algumas semanas atrás, então agora faço beicinho e amuo q.b.). Uma tontice, portanto. Mas deixando as lamúrias de lado, a minha sinceridade vai no sentido de te dizer que achei que não me respondeste ao email porque poderia estar a fazer meras “perguntas preguiçosas”, e não somente estúpidas. Em suma, pensei que tivesses tomado o meu pedido de ajuda (título do email) como o equivalente a uma preguicite aguda para os devidos efeitos (explicados no email…) que não corresponde – de todo! – à realidade. Tendo-me apercebido, neste preciso momento, da asneirada e da interpretação precipitada que fiz da tua ausência de resposta ao email (sim, eu sei, toda a gente tem direito à vida real, para além da virtual…), só me resta pedir-te desculpa. E, olha, quem sabe se ainda não te ris um bocado com o registo atabalhoado que assumi no email (estava um tanto ao quanto deslavada de alma quando o escrevi, confesso).

    1. Olá Tatiana,

      Não é preciso tanto, nem pedir desculpa eheheh
      Mas claro que não foi esse o motivo, eu não uso o que publico no blog para mandar recados a ninguém e não achei as perguntas preguiçosas.

      Simplesmente não eram perguntas simples, requerem uma resposta dedicada e isso leva tempo que nem sempre tenho. Respondi agora mesmo, durante a minha meia hora de almoço e em vez de escrever o post que tenho ali em rascunho.

      Não sei se é a resposta que esperavas mas espero ter ajudado 🙂

      Beijinhos,
      Rute

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s