Empreendedorismo a preto e branco

Peter_Drucker cópia

[AVISO] Conteúdo de tom ligeiramente sarcástico.

Há meses que deixei de fazer cursos online por falta de tempo mas quando pessoal do Y Combinator (possivelmente o melhor acelerador de startups do mundo) disponibiliza online as várias aulas sobre startups que estão a dar em Stanford, eu arranjo tempo.

Para quem possa estar igualmente interessado, ainda está a decorrer e podem assistir a “How to Start a Startup” aqui. São 20 aulas dadas por alguns dos melhores empreendedores, business angels e VCs do mundo.

No outro dia, por curiosidade, fui ver a lista de universidades que estão a passar os vídeos e a acompanhar o programa com os seus alunos e entre 500 instituições do mundo inteiro, só há uma portuguesa (o Técnico). Uma!

Não há dúvida que o ensino superior em Portugal precisa de uma revolução e infelizmente temos problemas estruturais que só serão resolvidos com novas políticas de ensino. Mas até lá cabe aos professores fazerem o que podem para se manterem actualizados e trazerem desafios interessantes para a sala de aula que realmente sejam relevantes no século XXI.

Com tantas universidades a darem cadeiras de empreendedorismo, não há professores que tomem iniciativa de dar destaque a isto?! É tão simples quanto projectar um vídeo.

Por curiosidade fui ver os planos curriculares em várias universidades e o que encontrei dá-me vontade de rir e chorar ao mesmo tempo.

Professores que nunca fundaram (ou geriram sequer) uma única empresa. Mas atenção que já participaram em vários estudos, publicaram artigos não científicos e, pasme-se, “registaram intensa actividade em congressos nesta área”. Ah, pronto! Assim está bem.

Encontrei também a razão pela qual estamos a privar os nossos alunos de terem acesso a palestras do Peter Thiel, Brian Chesky, Ben Horowitz e Ben Silbermann. Para quê ligar puto ao que dizem estes tipos que nem sequer têm “Dr.” antes do nome?

Sillicon Valley? Pleaaaseee!

Então temos aqui alternativas tão boas!

Vejam só as bibliografias das nossas cadeiras de empreendedorismo: “The origin and evolution of new businesses” de Amar Bhidé, um clássico mas que já foi publicado em 1998, esse ano estranho onde fundar uma empresa era aparentemente igual a fundar uma empresa em 2015.

Case studies de 1997. O ano em que alguns caloiros deste ano nasceram. Para quê ouvir um relato em primeira mão dos fundadores do AirBnb, Pinterest ou LinkedIn, né?

Nada dos essays do Paul Graham. Nada de livros como o Business Model Generation.

Pra quê? Temos Drucker.

Peter Drucker!! Com todo o respeito, o homem foi uma referência mas, sejamos honestos, morreu quando o facebook ainda se chamava the facebook.

Deixo aqui uma citação de um óptimo professor chamado Luís Rasquilha que é sobre marketing mas que encaixa na perfeição em qualquer outra disciplina: “Se estudas numa escola que ainda está em Kotler como bibliografia de marketing, estás morto…”

Sugiro que mudem o nome das cadeiras para “Empreendedorismo Vintage”.

Os alunos agradecem.

Rute Silva Brito
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Empreendedorismo a preto e branco

2 thoughts on “Empreendedorismo a preto e branco

  1. teixeiraandre says:

    Muito bem Rute!

    Eu sempre critiquei o sistema de ensino superior em Portugal devido a esses aspectos que elencaste. Termia as beiras quando ia ter aulas com “professores académicos” que nunca tiveram no mercado duro empresarial. Limitavam-se aos seus estudos, aos seus observatórios e a debitar literalmente conteúdo/teoria de livros de referência muito antigos. Por outro lado, ficava mais desperto por ter aulas com “professores profissionais de agências” que traziam case-studies actuais e não só. Era um “refresh” à minha alma enquanto mero estudante.

    Um bem haja! 🙂

    1. Thanks pelo comment André.

      Eu felizmente tive uma boa experiência na minha universidade (apesar de também ter várias críticas a apontar) mas sem dúvida que o que referes é um problema generalizado. Acho que, dependendo dos cursos, devia haver outros critérios que não os académicos na selecção dos professores e onde fosse valorizada a experiência profissional.

      Isto tudo é uma crítica no geral mas quando falamos especificamente em empreendedorismo é escandaloso. É uma “disciplina” totalmente prática e não há teoria absolutamente nenhuma que possa ser dissociada da experiência.

      E “experiência em congressos” não conta.

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