Mudar de emprego sem sair do emprego

dilbert

O feedback que recebi do meu post anterior foi surpreendente. Nunca pensei que numa amostra tão pequena quanto as pessoas que lêem o Licenciado. E Agora? existisse tanta gente a identificar-se com a situação que descrevi.

Uns já abraçaram a experiência libertadora de dar o salto. Outros reconheceram estar estagnados e estão a ganhar coragem para o fazer.

Isto fez-me pensar sobre duas coisas.

A primeira é a produtividade desperdiçada. Muitas das pessoas que se manifestaram são excelentes profissionais mas que, por estarem desmotivados, estão a produzir abaixo do seu potencial e capacidades. Tínhamos todos a ganhar se gestores, do topo à primeira linha, finalmente passassem a tratar os colaboradores como pessoas e não como recursos.

Se mais managers se apercebessem desta realidade de produtividade desperdiçada, havia mais empresas como a Zappos que tem como política pagar aos colaboradores para saírem da empresa. Se, depois de passar pelo processo de formação, um colaborador aceita 5 mil euros para sair da empresa, então também não tinha a motivação e empenho necessários para ser um profissional fora de série (naquela empresa). Os 5 mil euros de incentivo à saída não são um custo mas um investimento em produtividade.

A segunda coisa é que a probabilidade de estares na situação que descrevi – estagnado num ponto sem retorno – é muito pequena.

Isto porque a maioria dos profissionais que se queixa constantemente do seu trabalho (geralmente de factores que lhe são alheios, como o chefe), tem na realidade o poder de mudar as coisas, a começar pela sua própria atitude.

Não me refiro a nenhuma dose instantânea de auto-motivação que te faça ver o mundo mais cor-de-rosa. Até porque isso tem uma esperança média de vida muito curta, geralmente até à primeira dificuldade no caminho.

Refiro-me a procurares oportunidades concretas de mudança, de estares desperto, atento e de te responsabilizares pelo resultado do teu trabalho. Lá porque tudo o que exigem de ti é um trabalho medíocre, não quer dizer que tenhas que o fazer.

Ownership é o termo mais adequado.

Implica não aceitar desculpas para a tua infelicidade constante, 8 horas por dia, 5 dias por semana. “Ah mas o meu chefe não me deixa. Tem uma mentalidade do século passado e na empresa as coisas são feitas assim, não vale a pena.”

Tive um chefe que queria que eu usasse verdana em todas as minhas apresentações powerpoint – sim, isso mesmo, o tipo de letra. E como eu sempre fui da opinião que mais vale pedir desculpa que permissão, mandava as apresentações para os clientes como eu queria.

Isto é um exemplo ridículo mas o ponto é válido. Um dos melhores chefes que tive (e que foi um verdadeiro mentor para mim), disse-me numa das primeiras vezes que recorri a ele para resolver um problema que a responsabilidade de decidir era minha. Que nunca se iria chatear comigo se eu tomasse uma decisão errada, mas sim se eu não tomasse decisão nenhuma.

Claro que se chateou comigo várias vezes, mas nunca fui despedida – apenas tive de lidar com as consequências dos meus erros. E até hoje, prefiro arriscar fazer algo sem permissão e depois pedir desculpa se necessário.

A autonomia e a folga para se cometer erros é uma coisa que se conquista com o passar do tempo, à medida que se vai ganhando a confiança do nosso manager. O truque é ir conquistando espaço (e assumindo responsabilidades) gradualmente.

Em quase todos os postos de trabalho há oportunidades para fazer mais que o rotineiro, que o medíocre e que o esperado. Se te sentes bloqueado em cima, olha para o lado, para baixo e para fora. Ou seja, para os teus colegas, os teus reports directos e os teus clientes. Se começares a desafiar outras pessoas para novos projectos, novas ideias ou atitudes diferentes, com o passar do tempo tornas-te indispensável. O trabalho não é tão chato pois estás mais envolvido e em breve as pessoas começam a reparar – incluindo o teu chefe (aquele que tinha mente fechada, lembras-te?)

A empresa não tem nenhuma política de responsabilidade social? O que te impede de começares um movimento entre os teus colegas e doarem uma hora de almoço por semana para um projecto social conjunto?

Passamos tempo demais a sonhar com e a falar do nosso trabalho de sonho, de fazer aquilo que gostamos. Se calhar era mais produtivo reflectirmos sobre como podemos gostar mais do trabalho que já temos.

Se estás preso num trabalho que detestas, experimenta mudar a tua atitude. Experimenta pedir aquilo que queres e que te queixas por não teres (um aumento, mais responsabilidade, menos horas). Experimenta quebrar a tua rotina de trabalho e desafiar hábitos que produzem resultados medíocres. Experimenta pensar lateralmente, nos teus colegas e clientes.

Leva algum tempo, mas a mudança eventualmente acontece. Quando deres por ti, mudaste de emprego sem saíres do emprego.

Se tudo isto falhar e estiveres no ponto sem retorno, 2015 pode mesmo ser o ano em que te vais despedir.

A vida passa rápido demais para estares infeliz 8h por dia.

Rute Silva Brito
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Mudar de emprego sem sair do emprego

5 thoughts on “Mudar de emprego sem sair do emprego

  1. Olá Rute,

    Tens razão, dependendo do tamanho da empresa, concordo e é exactamente o que estou a começar a tentar fazer.

    Sentindo-me um pouco como num confessionário, tenho um “problema” com entrevistas. Não é psicológico, consigo-me preparar relativamente bem, tirando o nervosismo que tende a acompanhar a dimensão da empresa. O meu problema prende-se à falta de experiência, falta de competências em comparação com a minha concorrência. Já perdi conta às boas oportunidades que perdi (ou deixei fugir?) por não me conseguir destacar. Digo isto pois o feedback que me é transmitido é que gostam de mim, as soft skills estão lá, mas falta algo mais…

    A última boa oportunidade que me escapou foi para um gigante mundial tecnológico, fora de Portugal, em que nem sequer eram necessárias grandes qualificações, mas voltei a ficar a meio do percurso.

    Dito isto, sinto que tenho que crescer, tentar evoluir dentro da empresa onde me insiro e voltar a tentar. Pode ser que um dia algo de bom aconceça. Até lá, mesmo depois disso, espero continuar a ler o que escreves.

    Obrigado.

    1. Olá André,

      Percebo o desânimo mas estás com a atitude certa – não parar de evoluir e de crescer até surgir uma oportunidade que consigas agarrar.

      Quanto à situação das entrevistas, tens a certeza que o problema é falta de experiência? Se consegues chegar à entrevista é um óptimo sinal porque por norma os CVs tendem a ser filtrados com base na experiência e não tanto em soft skills.

      Poderá ser uma questão de comunicares claramente como a experiência que tens se enquadra estrategicamente na função?

      Food for thought… 🙂

      1. Well, thank you, for that 🙂

        Voltando a concordar contigo, talvez uma das razões se prenda à minha (in)capacidade de fazer ver isso mesmo.

        Desconheço que tipo de triagem fazem, assumo sempre que analisam o perfil da pessoa, com base no CV e tentam cruzar com o perfil que visualizam para a posição em questão e claro, vou assumir a “match percentage” é inferior a alguém, mesmo que isso só seja visto depois da entrevista. Considero o meu CV muito “narrow” o que acaba por prejudicar num confronto directo, a tal falta de experiência em determinadas temáticas quase imprescindíveis para o que me candidato, algo a melhorar, sem dúvida.

        Again, thank you.

  2. ana silva says:

    Olá Rute,

    Desde já os meus parabéns pelo teu blog. É Bastante cativante e elucidativo.Adorei mesmo!
    Espero que 2015 seja o meu ano de mudar:)

    Já agora e não querendo abusar mas já o fazendo, vou a uma entrevista na sonae, apesar de já ter ido a algumas entrevistas de emprego, acho que não me desenrasco muito bem, acabo por falar muito e nunca sei muito bem o que dizer p.exemplo: Ajudo o meu irmão na empresa dele numa área que é completamente diferente do que faço e um trabalho técnico que tive que aprender a fazer para o ajudar, os meus amigos e conhecidos dizem que é excelente eu fazer isso mas acho que as empresas poderão achar que não me irei dedicar a 100% e oculto sempre isso. Achas que devo mencionar?

    Obrigada e muitas felicidades!!

    1. Olá Ana,

      Obrigada pelas tuas palavras, é sempre muito encorajador ler estes comentários.

      Pessoalmente, sou da opinião que tem imenso valor e que, desde que o faças com o devido contexto, não tens de ter receio de o mencionar, por 3 razões:
      1) Revela iniciativa e um espírito empreendedor;
      2) Demonstra capacidade de aprendizagem (especialmente sendo um trabalho técnico);
      3) Prova que estás disposta a sair da tua zona de conforto e à vontade para experimentar coisas novas.

      Ninguém espera que as pessoas não tenham hobbies e os seus projectos pessoais, não tens de dedicar 100% do teu tempo ao trabalho. Tem apenas o cuidado de deixar implícito que é um projecto secundário que fazes para ajudar o teu irmão, para que quem te entrevista não fique a pensar que podes abandonar o teu emprego num futuro próximo em prol da empresa do teu irmão – isso sim pode prejudicar.

      Boa sorte!

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